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          EU EXISTO
  Roxane
Quinta-Feira, dia 21 de Fevereiro de 2008

Quando era pequeno a minha mãe era a autoridade máxima, dona e senhora de toda a razão. Tudo o que ela dizia era sábio e verdadeiro, tudo o que fazia era perfeito. A minha avó então era Deus. Daquelas duas figuras femininas só se podiam esperar decisões sensatas, julgamentos imparciais, manjares de comer e chorar por mais, remédios santos, conselhos preciosos e conhecimento infinito. Que pode correr mal quando se tem uma mãe ou uma avó por perto? Os anos foram passando e o chá de casca de cebola da minha avó começou a ter efeitos manifestamente menos eficazes do que o xarope das farmácias, as hamburgueres nos restaurantes começaram a ter um paladar gritantemente mais apelativo do que as da minha mãe, feitas lá em casa com um papo seco. De repente, a opinião política das minhas heroínas era completamente conservadora e descabida, a sua cultura geral era bastante limitada, já não eram as melhores cozinheiras do mundo, os seus conselhos e acções começaram a cair em descrétido e já nem uma gripe conseguiam curar. Caía o Império das semi-deusas lá de casa e logo se instaurou uma anarquia, sim um completo desgoverno, isto porque eu não tinha os atributos para assumir o cargo. E de repente dei por mim a seguir os conselhos de um vocalista de uma banda rock estrangeira, que só por milagre saberia da minha existência em vez de ouvir o meu irmão mais velho. Não sabia o que queria mas tinha a asboluta convicção de que o queria. E continuo a não querer crescer, aliás deve ser fenómeno social das gentes da minha geração esta sensação que a mãe está sempre lá, em último caso, a salvar o dia. Falo por mim, que tenho a melhor mãe do mundo. É espantoso como por vezes nos esquecemos de amar, como nos passa ao lado esta urgência de zelarmos pelo que nos pertence, que é parte de nós. Eu falo muito bem nestas teorias baratas em laços familiares e afectos, mas quanto a aplicá-las, deixo muito a desejar. Por essa mesma razão, decidi aplicar-me e estou a fazer progressos. Aprendi a cozinhar, ou melhor, a preparar refeições comestíveis e ofereci um gato à família. Corrijo, gata e chama-se Roxane. Pronto, acabou-se a discussão à volta do nome do bichano, é oficial e está no jornal. Eu te baptizo, Roxane, em nome do pai, do filho e do espírito santo, e do impresso de declaração do IRS. Amen.
Introduzido às: 07:34
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