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| EU EXISTO |
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| O homem que esperava não ter expectativas |
| Sábado, dia 13 de Março de 2010 |
Decidi desde muito cedo não esperar grandes feitos de mim. A única forma de não defraudar uma expectativa é não criá-la, e eu sempre tive a mania de optar pelo caminho mais fácil. Chegava até a adiar a escolha do caminho por ser mais fácil ainda não ter de escolher. São segredos, daqueles que escondemos de nós mesmos, pequenos e redondinhos, como as pedras à beira mar, moldados pela ondulação dos dias. Ou eram, segredos só meus que dantes valiam o peso das sete chave que os guardavam em ouro. Cheguei a jurar solenemente protegê-los da luz do sol, na prateleira dos troféus que qualquer aspirante a incompreendido que se preze tem na sala de visitas. Suponho que será um dos requisitos a preencher para alcançar o tal estatuto de metade génio metade louco, o não dar explicações de qualquer espécie. Uma vez mais, uma tarefa difícil, e eu sou alérgico a dificuldades. Gosto do fácil, que é o tentar explicar o que penso, e do impossível, que é explicar de facto o que me leva a falar de expectativas. Pensava assim que por não exigir nada de mim escapava a essa chatice que é a frustração, e continuaria a aceitar de ânimo leve o que o amanhã me trouxesse. O velho plano de não ter planos é infalível. Julgava-me dono e senhor do carpe diem, e até lhe pensei registar a patente da minha versão. Mais tarde conheci pessoas que – graças a argumentos irrefutáveis e à minha personalidade influenciável – me mostraram que um homem não é uma ilha e que eu não via a fasquia porque estava demasiado alta. Segundo julgo ter interpretado dessas sessões de como viver, não ter metas é colocar a fasquia três andares acima do impossível de alcançar. Deve ser qualquer coisa de intrinsecamente humana, como a crença em Deus ou o respirar, isto de nos propormos a assinar contratos com o futuro. De qualquer forma não me pareceu tão trágico quanto isso, porque impossível é a minha segunda opção, quando fácil não está disponível. Esta atitude de indiferença, de alheamento dos chavões convencionais da vida comandada pelo sonho, só conseguiu irritar ainda mais quem me tentava ajudar a ser normal, ou pelo menos a proceder como toda a gente faz. Choca-me que as pessoas se choquem tanto por tão pouco. Afinal de contas estava só em fase de testes, era um protótipo de um humano movido a ar. Ambição é um combustível que pode ser bastante poluente. Suponho que esperavam mais de mim e lá tive eu que ter o cuidado de não deitar completamente por terra as expectativas que criaram em meu redor. Não fui médico, senhor doutor ou engenheiro, mas um dia destes descobri orgulho nuns olhos que me fitavam. Foi difícil encará-los de frente. Lá tive que me esforçar. Acho que algumas escolhas não são feitas por nós... |
| Introduzido às: 07:58 |
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