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Era uma vez um homem que de um momento para o outro começou a evacuar pérolas. O homem não precisava de dinheiro por ser de natureza frugal e a sua primeira preocupação foi em esconder o facto, com receio de dar nas vistas. Felizmente para ele esta é uma obrigação natural que a cultura obriga a ser feita na privacidade. Porém, meses mais tarde, já ele se habituara a ocultar as alvas pérolas numa arca construída para o efeito e fechada a cadeado e correntes, deu-se conta que emanava do seu corpo um cheiro inebriante que, por mais que se lavasse, era impossível de retirar. Desta vez o problema era muito grave, por ser público. Passadas as primeiras semanas ele, que nunca fora vaidoso, decidiu comprar perfumes raros e da moda, tentando enganar os narizes alheios… Impossível de enganar os narizes mais vulgares. - Desculpe-me a pergunta: será que pode dizer o nome deste seu perfume? Tão distinto, tão subtil, tão… - Fahrenheit, da Dior. Aprecio muito os aromas orientais e nocturnos, misteriosos, com essências de madeiras exóticas e canela, não é assim? - Não, não me refiro ao Fahrenheit, que conheço. É algo mais… como direi… Meu Deus, é tão difícil definir um perfume! - Ah, então só pode ser o desodorizante. Tsar! Merece o nome que tem, não acha?! Não lhe parece que tem um quê de hortelã, seja como for um cheiro verde, não é assim?! - Não. O senhor desculpe-me a insistência, mas é algo do outro mundo, algo de – INFINITO! Claro, algo de Infinito e longínquo! É isso! Exacto! Exacto! Leve, leve, como se levitássemos! Qual é o nome disto? Olhando para o homem viu-o a chorar sem um gemido ou ginástica facial. Chorava só, só por chorar. Tempos passados, começou a emanar uma luz. Como se limpasse o pó às coisas ou se abrissem portadas em casa. Muitas pessoas que se encontravam de costas viravam-se para descobrir de onde vinha aquele foco resplandecente. Comprou casacos e chapéus, mesmo para usar no Verão. Mas a mágica chama era ainda mais efectiva deste modo. Era preferível andar como toda a gente, porque ao menos não parecia um boneco de Natal. Trancou-se em casa e evitou o mais que podia o convívio social. Procurara toda a vida o anonimato e de um dia para o outro o seu próprio corpo abria-se em público de uma forma que lhe parecia escandalosa. Sozinho em casa via muita televisão e numa noite em que assistia a um programa do canal História, sobre os místicos, tomou conhecimento de um monge medieval que voava pelos campos em redor. Assustou-se de imediato com a possibilidade de no futuro lhe acontecer algo de semelhante. “Meu Deus, pensou. Não me tortures deste modo!” Mas a partir deste dia, a várias horas do dia, versos estranhos de um hino desconhecido lhe apreciam à palavra, sem que pudesse evitá-lo: “Levitarei, levitarei um dia, leve, evitarei a carne”. “Já sei!, pensou ele a meio das insónias. Se fornicar bastante nada disto se repetirá”. Mal consegui esperar pela hora de pôr em prática a sua evasão. Entusiasmou-se ao ponto da erecção mas, chegada a hora exacta, a companheira da aventura nem queria acreditar naquilo que os seus olhos viam. O falo abria ao levantar-se, era a majestosa flor amarelo vivo. As lágrimas que de novo tombaram serviram-lhe de rega. E aconteceu que certo Domingo acabou mesmo por voar em plena missa das onze. A obsessão nunca mais o largara, melhor dizendo o pavor. Talvez tivesse sido um prenúncio do futuro, ou a inversa. Devagar, muito suavemente, muito muito em silêncio o seu corpo começou a elevar-se como um canto cristalino. Já os pés se levantavam do chão e os joelhos de todos se baixavam e as mãos se juntavam e as bocas rezavam em louvor do Altíssimo. O perfume daquela alma era impossível de prender e fosse o grau da grosseria humana era inevitável que se cogitasse em milagre. Não havia modo de o homem passar desapercebido, por mais que tentasse. Havia sempre um olho de soslaio à espreita do extraordinário. E o inusitado não poderia ser mais onírico e arquetípico. Foi-se elevando no ar desafiando todas as leis da Natureza e a Graça derramava-se de forma quase visível. A meio do grande templo inclinou o tronco para trás e começou a virar-se sem nenhuma pressa, fazendo lembrar aquelas nadadoras de acrobacias olímpicas. Sem querer, o corpo obrigava-o a uma dança celestial. Fechou os olhos e chorou amargamente, sem que se visse nem a fímbria de um comportamento rebelde em seu planar. As lágrimas foram tecendo uma teia de prata, uma rede, um disco voador, uma ventoinha de brilho esplendoroso. A fama que nenhuma serapilheira era forte quanto baste para ocultar. Por detrás das lágrimas se elevou cristalina a voz, como se não fosse ele a cantar: Levitarei, levitarei um dia Leve, evitarei a carne Sobrevoarei o mundo Sobre o mundo voarei Leve, levitarei um dia. Hei-de encontrar a paz Capaz de cá me perder pela paz Sem paz para me encontrar Sobrevoarei a carne Sobre o mundo voarei Leve, levitarei um dia Levitarei, levitarei um dia. É música que me leva Eleva e leva e pois ensina Sinal e talvez sina Levi, tu já na música Saudades da casa de meu Pai – Senhor eu não sou digno mas Dai-me a paz Não sentirei Senhor eu não sou digno mas Dai-me a paz Não quererei Senhor eu não sou digno mas Dai-me a paz Não pensarei Senhor eu não sou digno mas Dai-me a paz Leve, levitarei na música Dai-me a paz Dai-me a paz Dai-me a paz Dai-me a paz Dai-me a paz Dai-me a paz Dai-me a paz Acordou exangue, com um anjo aos pés da cama. - Porque choras tanto com as graças do Teu Criador?, perguntou o anjo. Ele queria falar ao anjo, talvez pedir perdão ou dispensa. Não consegui. Baixou os olhos, puxou e quis-se de novo menino em ouro maciço. O anjo partiu em cânticos de Glória a Deus nas Alturas. Por tudo isso decidiu suicidar-se. Não tinha a certeza. Talvez apenas nadar. Quem sabe o perfume do corpo não desaparecia nas águas salgadas e todas as outras extravagâncias fossem ocultadas pelo grande mar? Com esta última esperança se encaminhou para a praia. Desnudou-se e olhou por uma última vez para terra. A areia estava repleta de uma multidão que o seguira. A sua fama aumentara de dia para dia. Voltou-se para o grande mar e entrou pelas vagas diminutas em diminuta velocidade. Quando a água lhe dava pela cintura baixou-se por completo e reapareceu a nadar de costas. Nadou até ao horizonte, chorando sempre. Ele não viu, mas de cada lado do seu corpo-navio se foi abrindo um leque das cores do arco-íris e o arco-íris deste modo se levantava à medida que as mãos rodavam na profunda paz dos movimentos servis. E do arco-íris saíram todos os pássaros que Noé levou na arca. ___________ Mário Cabral é natural da ilha Terceira, Açores, onde vive. O conto encontra-se publicado no livro “Pinta-me um Conto”, edição: Teatrinho – Espaço de Criação, Açores, Outubro de 2004.Conto e fotografia com autorização do autor, 24 de Julho de 2006.
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