Estremeceu às primeiras rotações da hélice – um leve estremecimento que lhe percorreu o corpo todo. Sentiu o sangue latejar-lhe nos ouvidos, a boca sabendo a sal e a garganta seca, muito seca. Coisa séria na sua vida - decisiva. Mas ao roncar da sirene, ficou apavorado. Todo o barco trepidou e o coração era como uma bola a inchar e a bater-lhe no peito ofegante. A garganta seca e o peito a encher-se e a vazar-se de ar, rápido, rápido, dolorosamente rápido. Dominou-se. Precisava dominar-se. Não havia razão para ficar assim. Nem necessidade. Mas não podia conter a excitação. Tudo bem até ali; não havia razão para susto, mas custou-lhe a engolir a saliva. A boca seca e o coração a bater desordenado. De repente sentiu-se feliz, alegre. Alegria? Seria aquilo alegria? Às vezes a alegria também dói. Anicha-se no peito como coisa a mais e chega a doer. Percebeu-se nervoso e fez esforço para se dominar. Que horas seriam? Quase noite. Ou seria por estar fechado há tanto tempo? Se calhar enganava-se. Quando se espera, o tempo corre muito devagar. Talvez fosse do nervosismo. Tinha de dominar-se. Virou-se cautelosamente para não fazer ruído. Uma perna dormente. Que horas seriam? Curiosidade tola. Para que saber horas? Precisava era chegar ao fim da viagem e pôr-se a safar. Pôr-se a safar: quem sabe se não seria o mais difícil? Nada. Isso era para depois. Agora, aguentar com paciência e ter cuidado. Muito cuidado. Mas podia saber as horas: era só levantar um pouco a cobertura de lona do salva-vidas e espreitar para fora. O barco só agora começava a mover-se. Ainda estava dentro da doca; poderia facilmente ver o relógio da Matriz. Resolveu-se. Apoiou o corpo no cotovelo esquerdo; apurou o ouvido: ninguém por ali. Com a mão direita levantou lentamente uma ponta da coberta e espiou. Viu a cidade toda, ali à beira do mar. Terra triste… Tudo silencioso e morto. Nem parecia terra habitada. Tudo silencioso e morto. Lá estava o cazinhoto vermelho onde se vendiam os bilhetes das camionetas do Varela, a torre amarela da igreja. Olhou o relógio da torre: “Sete e um quarto”. Em casa, eram horas de jantar. A mãe já o estaria esperando e a filha brincava à porta, como de costume. Entristeceu. A filha estaria brincando à porta de casa. Gostava de a ver assim viva. Mas a mãe não gostava nada: - Galos com galos, galinhas com galinhas – dizia quando a encontrava no meio da garotada. Isso era contrariá-la e contrariá-lo. Gostava muito da filha e achava graça ao seu feitio rebelde. A avó não entendia daquilo. Também nunca o tinha entendido quando rapaz. Em casa já o estariam esperando para o jantar. Suspirou fundo e os olhos ficaram-se-lhe turvos. Ajeitou o casaco e repousou nele a cabeça. Voltou-lhe a imagem da filha brincando à porta de casa. Era lá que a encontrava sempre, quando regressava do trabalho. Sentiu uma saudade cruel apossar-se dele e espantou-se. Nunca pensara que lhe custaria tanto partir. Esse tinha sido sempre o seu maior desejo, a sua única ambição. Desde criança que se agarrava a esse sonho: partir, sair, dali. Muitos outros o tinham conseguido mais facilmente. Só o Cabral é que não. Mas isso porque não quisera. Não lhe tinham faltado oportunidades. Mas era um trouxa. Com tudo pronto, carta de chamada, passaporte e tudo em ordem, não foi capaz de se decidir. Era só comprar a passagem e embarcar sossegadamente, mas não teve forças. Quando lhe chegou a vez, o “número do cota”, certeza de que era só comprar bilhete para Nova Iorque, desanimou. A noiva fez um berraceiro dos diabos. Agarrou-se-lhe com quantas forças tinha e não o largou nem por nada. Fez tudo para o demover. Até talvez fosse verdade isso que diziam dos pós de tocamor e do chá de gadelha de defunto de cemitério… Um fraco. Ela, deu-lhe tudo quanto tinha para lhe dar e ele caiu como um pato. Acomodou-se e ficou. Um trouxa. Sentiu voltar-lhe a confiança. Quebrara com tudo. Até com a filha. Talvez só ela o tivesse prendido nos últimos tempos. O Cabral era um fraco. Podia afirmá-lo. A história duma mulher a atravessar-se na vida, também já ele a tinha passado. Mas tivera coragem. Ela que não fosse tola: bem sabia as coisas como eram. O seu caso tinha sido bem pior porque ela se sujeitara tudo, até a viver com ele sem terem casado. Bem a prevenira de que não queria compromissos; queria ir para a América e não lhe convinham empecilhos. Veio o nascimento da filha. Um parto complicado, hospital, farmácia, médico… um dinheirão – tudo quanto economizara para realizar o grande sonho. E nada a aguentara – um dinheirão por água abaixo. Fez tudo quanto pôde, gastou tudo o que tinha, mais do que tinha, porque não queria ficar em remorsos. Mas foi em vão. Ainda estava a senti-la de corpo em chaga, apodrecido pela infecção, agarrada a ele no último estertor. Tudo findara. Tudo finda na vida. Chorou de tristeza e solidão. Mas ficara-lhe a filha e o sonho velho voltou, agora mais aceso. O sonho de partir. E o dinheiro? Fraquezas… O Altino não partira sem dinheiro? E o Fernandes, que todos os anos mandava lindas roupas ao irmão e notas de dólar novinhas em folha? O Cabral é que era um trouxa. Havia de falar dele, o idiota, acusá-lo de falta de sentimentos. Mas que descansasse: havia de provar-lhe que isso era só inveja. Quando chegasse à América, juntaria dinheiro e mandaria buscar a filha e a mãe. Não. Não era um cobarde como ele. Adormeceu. Ainda sentiu os balanços do barco, o ruído ritmado das máquinas. Um sorriso nos lábios e adormeceu pesadamente. Acordou sobressaltado. - Manolo, oye Manolo, soy yo – e toques de dedos batendo suavemente no costado do salva-vidas. Era Diego, o argentino. Só ele o tratava assim por Manolo. Sossegou e respondeu-lhe num sussurro. O outro trazia-lhe a comida e aconselhou-o a ter cuidado: - No salgas, ni hagas mucho ruído. Atrapalhou-se com as palavras inesperadas: - Que dizes, Diego?”No salgas”, o que é, o que é? Há perigo? Diz-me: há perigo? O outro explicou-lhe que não havia perigo se ele não saísse do escaler. Que o capitán os conhecia a todos e que não era melhor não sair donde estava. Prometeu trazer comida. - Mañana te traré comida. Todas las mañanas te traré la comida. Mas não trouxe. Na manhã seguinte não trouxe comida. Nunca mais voltou a trazer comida. Na tarde seguinte apareceu apenas para lhe dizer que não voltaria a trazer nada. O cozinheiro era americano, da inteira confiança do capitán e ainda por cima embirrava com os latinos. Que havia perigo de descobrirem; e, para evitar sarilhos, que se servisse das latas de bolacha e de água que estavam no gavetão do fundo do escaler. Era mau, mas que tivesse paciência. Valia bem a pena o sacrifício. Estava cheio de fome e com tonturas. Bem bom não enjoar, mas a cabeça andava-lhe à roda, talvez por ali fechado, sem poder movimentar-se, aparreado. Levantou-se e, de gatas, foi, com mil cuidados, procurar no gavetão da proa as latas de bolacha. Na verdade lá estavam. Eram quatro latas rectangulares, entaladas num caixote de madeira. Tocou-lhe com ambas as mãos (quais seriam as de bolacha?). Por fora eram todas iguais. Tomando-lhes o peso conclui que seriam as mais leves. Deixou ficar de fora uma delas e fechou o gavetão. Sentou-se de pernas cruzadas e procurou abri-la. Mas não foi capaz. A tampa era atarraxada e a rosca estava oxidada. Desanimou. Fez força com ambas as mãos agarradas à tampa da lata que entalou nas pernas até sentir o sangue subir-lhe às veias da cabeça. Tudo em vão. Desesperou. Repetiu a experiência com todas elas, sem resultado. Poisou a lata e, com o tacão da bota, desfechou-lhe na tampa uma série de pancadas violentas e descontroladas. “Imprudência fazer barulho”, pensou, “mas não hei-de morrer à fome!” Sincronizou as pancadas na tampa com o ritmo das máquinas do barco e assim trabalhou pacientemente, durante longas horas. Era quase noite quando consegui as bolachas. Sabiam a mofo, mas comeu-as com sofreguidão. Estava habituado a maus bocados e agora, que tudo se encaminhava para uma vida melhor, não era momento para se pôr com exigências. O argentino tinha-o convencido a embarcar clandestinamente. Que tudo correria bem. Na América meter-se-ia entre os trabalhadores do cais e fugiria às autoridades. Certamente que nem tudo poderia ter sido previsto. Viajar assim tinha as suas contrariedades. Lá isso da comida, o amigo tinha razão.Era preciso evitar sarilhos, tanto mais que o cozinheiro era um tipo que não os gramava. Sentiu-se quase feliz, mesmo com o corpo dorido e a cabeça atordoada. Três dias. Mais quatro ou cinco e chegariam à América. Talvez um dia mais, talvez um dia menos. Como o tempo estava bom, até podia ser que gastassem menos… Quer dizer: daí a três dias e tal, estaria chegando. Voltou-se e ficou deitado de costas. Doíam-lhe os ombros e as ancas. No fundo, aquilo até que era uma história engraçada. Mais engraçada que muitas fitas que vira. As histórias das fitas eram sempre tolas. Na vida as coisas tinham muito mais piada, porque não eram só alegres ou só tristes, mas uma mistura de tudo. Arrotou e passou-lhe pela boca o gosto mofento das bolachas, mas achou que a vida era uma coisa boa. Bem melhor era comer aquelas bolachas com mofo do que ficar na ilha, parado, na pasmaceira mal remunerada de todos os dias. Uma vida gasta sem esperanças. Vidas queimadas sem alegrias nem tristezas. Lembrou-se do Julinho Miranda. Um palerma! Não se sabe quantos anos de liceu para aquilo: vender metros de chita ao balcão: - Não temos exactamente esse tecido, mas estou certo de que V. Exa. vai gostar deste padrão… Um idiota que também falaria dele. “O que eles não têm é coragem para se libertarem”, pensou cheio de firmeza e de orgulho pela atitude que tomara. Um galo cantou. Era o galo que estava na gaiola, ao pé da cozinha. Ele também estava engaiolado e nem podia cantar, mas chegaria o tempo em que o poderia fazer livremente. Respirou fundo e voltou a sentir que a vida era muito boa de viver. Havia de arranjar emprego. Ganharia bom dinheiro que lhe permitisse uma vida digna. Primeiro, mandaria buscar a filha, e a mãe depois compraria um automóvel e até talvez mesmo se casasse. Encheu o peito de ar, cheio de ternura por isso tudo que seria o seu futuro. E sentiu sono. Mesmo assim, era terrivelmente aborrecido estar engaiolado. A única coisa a fazer era dormir. Dormindo, o tempo escorregava mais depressa. Fechou os olhos. A imagem da filha voltou-se à memória. Viu-a a correr com as tranças no ar. A correr e a rir alto. Depois, tudo se lhe tornou indistinto, até quase adormecer. Ouviu o capitão berrar e teve medo. Porque diabo estariam abrindo os porões? E que correrias seriam aquelas? (Até ali, só os toques de sineta, marcando os “quartos”, quebravam o silêncio monótono de todas as horas). Que seria aquilo? Teve medo. Estariam a procurá-lo não. Isso não era provável. Não era preciso abrir os porões assim. Se é que aquilo era abrir porões… Lançavam carga ao mar. Ouviu nitidamente o baque da carga batendo na água. Mas muita carga, porque o ruído se repetiu muitas vezes. O que seria? Talvez o navio estivesse arrombado. Mas não, não era possível. Não havia o mínimo sinal de tocarem nos escaleres. O outro salva-vidas estava a bombordo, ali junto. Sentiria perfeitamente se lhe mexessem. A máquina abrandou o andamento e o barco deu balanços assustadores. Sentiu pavor. Não havia dúvidas que iam a pique. Esqueceu tudo e ficou tomado pelo pânico. Nem podia mexer um dedo. Todo o corpo a tremer. O navio ia afundar-se! Não tardariam a correr os escaleres e encontrá-lo-iam escondido como um rato na toca. Depois, se escapassem, prendê-lo-iam, quando chegasse ao primeiro porto. E se o deitassem ao mar como tinham feito à carga? Lembrou-se de histórias macabras em que isso acontecia. Encolheu-se instintivamente e tremeu mais. Espiou para fora e viu o mar calmo e tudo a bordo lhe parecia normal. Passara uma noite quase sem dormir, à espera do desfecho trágico. Enganara-se. O navio continuava singrando normalmente. Seguramente nada acontecera de especial, senão já o argentino o teria avisado. Reviu tudo de memória e ficou perplexo. Se calhar, nada acontecera. Voltas que a mioleira dá… Talvez uma partida da imaginação. Não, isso não. Qualquer coisa de anormal tinha sucedido a bordo, mas nada de importância para ele. Coisa do diabo era nunca mais chegar ao fim. Se tivesse com que pagar passagem, nunca se meteria naquilo. Passageiro Clandestino, haviam de dizer os jornais da terra, mas já estaria longe, em terras da América, seguro, ganhando e levando uma vida limpa e decente. Então havia de se rir dos que ficavam. O Cabral, em casa, agarrado à mulher, chumbado a uma vida sem nada que prestasse. Riu tristemente, sentindo o quanto era difícil ganhar a liberdade. Mas tinha tido coragem. Valia bem o perigo e a chatice de viajar daquela maneira. Na América seria outra coisa. Compraria um automóvel e havia de arranjar mulher. Era o melhor. Queria uma vida limpa e sossegada. Uma vida sossegada, mas não como a do Julinho Miranda: - Vossa Excelência faz favor de reparar na ourela: é “Sportex” autêntico, mas também temos para mais barato… Pateta! Aquilo e à noite uma partida de bilhar na Associação. Havia de se rir deles todos. Terça: um; quarta: dois; quinta: três; sexta: quatro; sábado: cinco. Cinco dias. Voltou a contar pelos dedos e teve a certeza de que não se tinha enganado. Cindo dias de viagem. A manhã estava clara e fresca, e não havia sinal de terra. Mas aquilo era o pio das gaivotas e as gaivotas estão junto à costa. Levantou a aba do toldo, voltou a espiar e só viu mar e céu e a calma do costume. Quem sabe se se tinha enganado na contagem dos dias? Sobressaltou-se. E o desembarque? Depois daquilo tudo, podiam agarrá-lo no desembarque. Fez um esforço por acalmar-se. Diego havia de aparecer para ajudá-lo. Queria era apanhar-se em terra. O resto eram fitas. Mas era preciso ir pensando na maneira de se raspar. Qual nada! O pior era pensar nisso. Não levava malas nem nada; a roupa era americana, de trabalhador americano. Confundir-se ia com os outros. Para alguma coisa lhe havia de servir ter trabalhado tantas vezes a bordo dos barcos americanos que arribavam com a instalação eléctrica avariada. Deixou-se ficar dormindo a sono solto, de costas, com as mãos cruzadas debaixo da nuca. Quando a sirene feriu o ar e fez tremer todo o navio, deu um salto brusco e bateu com a cabeça na lona húmida. A sirene interrompeu-se e voltou a roncar. Sentiu-se atordoado, sem pinga de sangue. Chegado? Tinha chegado? Os rebocadores apitaram estridentes e a bordo começaram a rolar ferros, a girar os guinchos. Não pôde mais. Com as mãos trémulas, a respiração ofegante, espiou de olhos arregalados, entre a coberta de lona e a borda do salva-vidas. O coração bateu-lhe mais forte e, inconsciente, conteve a respiração. A cidade estendia-se na parte baixa, junto ao mar. A cidade estendia-se na parte baixa, junto ao mar. Na varanda de Pilatos, o cazinhoto vermelho do Varela, com gente à volta comprando bilhetes para as camionetas. No centro a praça, a igreja com a torre amarela do relógio. Sentiu uma garra apertar-lhe a garganta e um choque no estômago. Tudo lhe andou à volta. Zumbiram-lhe nos ouvidos milhares, milhões de insectos. Sentiu náuseas e vomitou por cima de si, com a cabeça pendente e o queixo apoiado no peito. O Sr. Marques, velho repórter do “Diário das Ilhas”, foi dos primeiros a aparecer a bordo. Conversou arrastadamente com o imediato, a quem agradeceu com afectada cortesia as informações recebidas. Desceu a escada e, já sentado na lancha, tirou do bolso um bloco de notas e acabou de redigir a notícia: Na manhã do terceiro dia declarou-se fogo num dos porões. Parte da carga incendiada foi lançada ao mar. O navio regressou para reparar os circuitos eléctricos, completamente avariados. Não se registaram desastres pessoais.
____________________ Eduíno Borges Garcia nasceu na ilha de S. Miguel, Ribeira Grande, em 1922 e faleceu a 7/1/1979. O conto está publicado em “Ilhéus, Portugas & os Outros” de Eduíno Borges Garcia, Edições Salamandra, Lisboa, 1995 e na revista “Vértice”, Coimbra. Nota: Fiz esforço para encontrar a pessoa familiar que autorizasse a publicação do conto aqui nos Contos dos Açores e, inclusivamente, tive contactos com o escritor Urbano Bettencourt e o director do Departamento de Línguas e Literaturas da Universidade dos Açores. Ainda assim, não consegui maneira de ultrapassar isso. Aqui fica o conto com referência de onde está divulgado, ficando, no entanto, a aguardar que se consiga obter a autorização.
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