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Depois vinham os mascarados. Mas, durante a seroada, enquanto as horas decorriam ao redor da pedra do lar, o que importava eram as filhoses. Minha Mãe levava a manhã a amassá-las. A manhã ou a tarde? Não sei. Foi há tantos anos! E tanta coisa tem acontecido!... Tanta!... Lembro-me de que, antes via minha Mãe na cozinha, à volta do grande alguidar de barro, de loiça de Vila Franca do Campo, assente no banco de pinho em frente á janela, o lenço na cabeça amarrada para trás, as mangas do vestido puxadas para cima… E tudo começava pela mistura dos ovos com o açúcar: ovos partidos na borda do alguidar, gemas e claras batidas no fundo, açúcar que tombava dos embrulhos chegados do botequim… Os olhos não se me desprendiam daquela papa langanhenta de ovos com açúcar e a água crescia-me na boca. Os mês olhos – e os olhos de meus irmãos; a água a crescer-me na boca – e na boca de meus irmãos. Às vezes, íamos a molhar o dedo, a levar o dedo aos lábios… - Safa, canalha! Não sejam subejos (1) – zangava-se minha Mãe. Ou fingia que se zangava? Maiores, mais numerosos que os embrulhos de açúcar – os de farinha alva, que minha Mãe derramava no alguidar. Com água, que ia deitando até que bastasse. Com sal, que deixava cair até que desse gosto. E o fermento – claro, o fermento. E levava tempos a amassar, curvada, o avental de linho por diante do vestido de holanda, as mãos, os braços, a entrarem e a saírem, e tornando a entrar e tornando a sair, na massa muito amarela, pouco a pouco a se tornar mais ligada, mais compacta. Quando via que estava bem, arredondava-a com as palmas das mãos abertas e, de cabeça erguida e de expressão grave, traçava-lhe no alto, com a direita, a grande cruz, em nome do Padre, do Filho e do Espírito, que Deus te aumente e te acrescente! Pegava então ao colo no alguidar com a massa. Pegava-lhe como quem pega num menino. Um menino que levava para o quarto de dormir e deixava, abafado com muitas roupas, longas horas na cama. Se nos surpreendia, sorrateiros, olho atrás, olho adiante, a meter o braço por debaixo daquele monte de roupa e a levar à boca gulosa o dedo pingando massa, lá tornava: - Que canalha esta! (2) Daqui para fora! Não vêem que fica feio ser subejos? Aquela zanga de minha Mãe… Fincávamos os olhos no chão, sentíamos nas caras a cor da malagueta. Feio ser subejos… Mas quem podia resistir à tentação? Á noite, o alguidar com a massa – o menino que ficara aquelas horas todas a dormir, a crescer – saía em triunfo da cama, da quentura das mantas e dos cobertores, voltava, em procissão de festa, minha Mãe à frente, com ele seguro no círculo dos braços, nós todos atrás, assim voltava à cozinha, para a amassaria encostada ao frontal, a massa para as filhoses, crescida, muito crescida, muito fofa… Ardia em labaredas, o lume na pedra do lar. O lume das achas da lenha que acarretávamos, os rapazes e meu Pai aos ombros, as raparigas e minha Mãe à cabeça. As achas que serrávamos e fendíamos com nossas mãos a calejarem-se para a vida negra na cabeceira da serra e no cabo do machado. E as chamas dançavam debaixo da grelha (3), o grande caldeirão em cima com a graxa dentro, a chiar. Lá fora, andava a chuva, o vento, o frio. Ali, ao redor do lume na pedra do lar, havia calor. Calor de fogo. Calor de paz – de amor. A massa, aos punhados nas mãos de minha Mãe, passava do alguidar para a tábua da amassaria, e cada punhado de massa, estendido, adelgaçado, transformava quase numa folha de papel muito fina e redonda (com uma garrafa a servir de rolo) – ia, dependurada pelo meio nos dedos longos de minha Mãe, a cair na bocarra do caldeirão, com graxa dentro, a chiar, a chiar… As mãos de minha Mãe, os dedos de minha Mãe, trabalhando, movendo-se na cozinha, com alegria – para alegria de todos nós. E as filhoses, tiradas do caldeirão espetadas num garfo, começavam a amontoar-se na ampla travessa de loiça de cavalinhos, polvilhadas com açúcar pelos dedos de minha Mãe. - Comam! Comam! Já minha Mãe nos não chamava de subejos. Ria – seus olhos riam, seus lábios riam, sua alma ria – enquanto nos fartávamos… Hoje, eu sei: o coração de minha Mãe nunca se zangava. E lá fora, a chuva, o vento, o frio. Meu Pai acabava de chegar – e acabava de se encher na nossa casa. Havia mais calor, Mais calor do fogo na pedra do lar. Mais calor de paz – de amor… Depois, vinham os mascarados. Depois, no dia seguinte. Os mascarados inocentes. E também os outros: os mascarados que só tiram a máscara pelo Entrudo. Ou nem pelo Entrudo a tiram e apenas a mudam por escassos momentos. Tudo acabou! Tudo! Menos os mascarados – os outros mascarados -, que esses nunca mais acabam. Quantos porque a madrasta da vida os obriga a andarem sempre de máscara na cara!
___________ Notas: (1) Subejo: o guloso que cobiça tudo para de tudo comer mais do que pode; neste contexto tem conotações de carinho. (2) Canalha: neste contexto, maneira carinhosa de repreender as diabruras das crianças. (3) Grelha: neste contexto, trempe.
DIAS DE MELO nasceu na ilha do Pico, na freguesia da Calheta de Nesquim, concelho das Lajes. O conto encontra-se publicado in “Pena Dela, Saudades de Mim”, edições Salamandra, Lisboa, 1994. Conto e fotografia com autorização do autor de 1 de Maio de 2006. As notas aqui têm uma sequência numérica, diferente do que está no livro que é por página.
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