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O 25 de Abril

Autor
Nun'Álvares de Mendonça

 

      No ano seguinte, já não tive hesitações. Iria de novo como mestre.
      Agora eram os fabricantes que me telefonavam para casa a pedir para lhes vender o peixe e as ofertas sempre a subirem. Nesse ano já vendi o peixe a sete escudos e cinquenta centavos o quilo.
      Até que chegou o ano de 1974. Tinha começado a arriar a traineira no dia 24 de Abril, como tivesse levado mais tempo do que esperado, não nos foi possível deitá-la ao mar, tendo ficado à boca do varadouro para o fazermos no dia seguinte de madrugada. Como tinha família em Angra, deitei-me no meu camarote na traineira, tendo acordado por volta das três da manhã por sentir  pessoas a falar junto à traineira. Levantei-me,  desci para o varadouro para me indagar do que se passava àquela hora. Qual não é o meu espanto quando vejo dois guardas da PSP a conversarem com uma terceira pessoa e um outro mais afastado. Que se passaria a uma hora daquelas para ali estarem aqueles guardas quando era habitual estarem a dormir, pois ladrões de rua nessa altura não os havia. Dirigi-me ao guarda que estava só, que por sinal era meu afilhado, e perguntei-lhe o que se estava a passar.
      - O padrinho não ouviu as notícias?
      - Ia agora ouvir notícias a esta hora!... Tenho mais que fazer.
      - Mas o padrinho tem aparelho de rádio a bordo, vá ouvir o que se está a passar, estão sempre a dar a notícia…
      Subi novamente a escada e fui ligar um dos aparelhos e pouco depois começava perceber tudo o que se estava a passar. Até a razão por que a traineira estava cercada de polícias.
      Desci novamente as escadas e fui ter com os guardas que estavam todos juntos e disse-lhe:
      Já sei que estão aqui por minha causa, mas podem se ir embora e digam ao chefe que eu não posso arriar a traineira sozinho e mesmo julgo que já não há necessidade de fugir.
      - O padrinho olhe que o nosso chefe não tem culpa de nada, as ordens vieram do Comando de Angra e eu é que recebi e depois fui transmitir ao chefe.
      Como já estava habituado a estas perseguições não fiz grande caso e voltei para bordo a ouvir mais notícias. Por aquilo que estava a ouvir parecia que desta vez, era para valer!... E foi!...Embora de uma maneira, pelo menos para mim muito estranha, o que alguns meses mais tarde me viria a dar razão.
      No dia seguinte arriámos e dias depois iniciámos a pesca.
      Estávamos no fim do mês de Maio, tínhamos estado a descarregar peixe no Cais do Pico e viemos para as Velas, aguardar pela noite para irmos iscar. Como tinha vários tripulantes dali, disse que podiam ir a casa até à hora de sairmos e também me fui deitar para o meu camarote e já devia estar a dormitar quando um dos tripulantes me veio chamar dizendo que estavam pessoas em cima do cais, entre elas o sr. António Henriques que queriam falar comigo. Ao chegar acima do convés deparei com várias dezenas de pessoas e ao saltar para cima do cais logo fui cercado e me dizem que me vinham buscar para ir tomar posse como Presidente da Câmara.
      - Mas vocês estão doidos ou o que é!... Isso agora já é assim… Nem me queriam deixar falar meteram-me o braço e só diziam vens com a gente, aquele lugar pertence-te, tu toda a vida te bateste pela democracia.
      - Vocês estão enganados, eu de facto bati-me pela democracia, mas não por uma democracia sem rei-nem-roque, como esta que estão para aí  falar.                                                                                     Eu estou muito bem aqui e daqui não saio. Vão-se lá embora e arranjem outra pessoa, eu, nem pensar nisso.
      Ainda insistiram, mas perante a minha indisponibilidade, lá se foram cais acima e eu calmamente fui para o meu descanso. 
      Se eu ia agora deixar o que tanto sonhei “O MAR”, para me ir meter a dirigir uma Câmara…
      Tudo, embora me estivesse a correr pelo melhor, não estava de todo satisfeito, andava ansioso para meter frio a bordo para poder ir pescar para mais longe e também, evitar ter que ir a terra todos os dias para descarregar o pescado. Para isso já tinha feito várias tentativas com vários fornecedores de equipamento de frio, chegando-se sempre à conclusão da falta de espaço. O barco era pequeno.
      Tinha a bordo dois rádios, um emissor-receptor, para falar com as Fábricas, traineiras ou Rádio Naval e um outro para ouvir música e as notícias, por sinal tinha adaptado a este uma antena direccional, com que fazia que me servisse como rádio goniómetro.
      Após o 25 de Abril, estava praticamente ligado todo o dia para as notícias e como já se falava na possível entrada para a C.E.E., começou a nascer em mim a ideia de adquirir uma outra traineira, maior e mais moderna, principalmente com frio a bordo para conservar o pescado.
      Esta ideia  foi tomando forma e já se estava a tornar numa obsessão.
      O barco tinha que ter limitações, para que eu, com a minha carta de Mestre Pescador, o pudesse comandar.
      Estava também ciente que esse barco iria custar muito mais dinheiro. Eu tinha já ganho alguns milhares de contos e esperava conseguir vender a traineira que tinha por um preço não inferior de três a quatro mil contos e o resto que faltasse, agora, por aquilo que ouvia era muito mais fácil de conseguir dinheiro e ainda poderia recorrer a um aval do governo visto se tratar de um investimento para o desenvolvimento o qual ainda garantia vários postos de trabalho.
      Quando varei, no fim desse ano, voltei a tudo a ponderar e procurei arranjar comprador para a traineira, aparecendo-me um interessado com quem entrei em negociações.
      Minha filha tinha casado com um oficial, piloto da Marinha Mercante, e estando a família toda junta em determinado dia, falou-se no assunto e eu disse que estava resolvido a ir à Espanha, à cidade de Vigo, para ver se conseguia ali um barco em segunda mão, ou um construtor para o fazer, dentro daquilo que pretendia.
      O meu genro, que estava presente, ofereceu-se para me acompanhar, se eu julgasse necessário o seu auxílio. Como era uma ajuda, tanto mais que ele falava bem Espanhol, Francês e Inglês, acabei por aceitar e fomos os dois.
      Não demorámos muito nesta cidade, pois depressa chegámos à conclusão que não havia nada dentro do que eu queria e para construir os prazos eram muito grandes, o que não interessando, regressámos sem nada resolver.
      Em Lisboa falando com alguém dentro do assunto, disse-nos que na Inglaterra seria o local indicado para concretizar tal negócio, indicando-nos um agente em Londres de vendas de todo o tipo de embarcações.
      Lá seguimos para Londres e após a primeira reunião com o agente, indicou-nos vários barcos no Norte da Inglaterra, principalmente na cidade de Hool, onde com ele os fomos ver. Mas eram barcos de pesca de arrasto que não se adaptavam de maneira nenhuma à nossa pesca, além de serem grandes e fora do meu orçamento.
      Em Londres, enquanto aguardávamos que o agente descobrisse algum barco que nos satisfizesse, entrámos numa Livraria e ao folhear um livro sobre pescas descobri, mais ou menos, aquilo que pretendia.
      Comprámos o livro que levámos ao agente para ver se ele encontrava algum dentro daquilo que era mais ou menos o que pretendia. Era um barco com frio de pesca ao atum de cerco e que também se prestava para pescar de salto e vara.
      Ficou de procurar o que pretendíamos, mas que isso poderia levar algum tempo que depois nos informaria.
      Ainda nos indicou um outro agente na Bélgica, mas que julgava que também este, não teria nada que interessasse.
      Mas, como não estávamos muito longe, lá partimos para a Bélgica, mas também ali nada conseguimos, tendo voltado a Lisboa, só com algumas esperanças.
      Já estávamos nos Açores, quando recebemos uma carta do agente de Londres que tinha encontrado em França um barco que julgava ser aquilo que pretendíamos. Era um barco de 40 metros de comprimento, com porões frigoríficos para 400 toneladas de pescado, com rede de cerco de 1.200 metros de comprido e setenta de alto, equipado com alador e guinchos, sendo o motor principal de 1200HP e com dois geradores de 220 HP, tudo com garantia do seu bom estado.
      Era este navio que eu desejava, mas o seu preço de um milhão de dólares, não estaria ao meu alcance.
      Além disso, este navio com uma deslocação superior a quatrocentos toneladas, tinha que ter um capitão encartado.
      Mas mesmo assim, em principio não desisti e procurei indagar-me se seria possível autorizarem uma compra, de tal envergadura, tratando-se ainda por cima de uma importação.
      Pelos contactos que comecei a ter, não tive grande oposição, todos achavam ser de grande importância uma unidade daquelas nos Açores e isso ia-me dando mais alento. Mas quando se entrava no valor é que as coisas mudavam um pouco. A Secretaria Regional das Finanças ficou de estudar o assunto e me dar uma resposta. Essa resposta veio alguns dias depois:
      Davam um aval de 13.000 contos, mas eu teria que apresentar uma escritura de Sociedade em que o capital social fosse do mínimo de cinco mil contos.
      Fiz a escritura, pelo capital pretendido, formando uma sociedade cm o meu genro que se prontificou a ir comandar o Navio e com o meu filho mais velho.
      Não vou aqui descrever esta odisseia cheia de prós e contras, pois isso ocuparia muitas páginas.
      O negócio acabou por ser concretizado com o empréstimo de um Banco Francês, com o aval da Sociedade Financeira Portuguesa, tínhamos de pagar a esta que por sua vez ia liquidando ao Banco Francês.
      A compra foi feita por trinta mil contos, pagável em quatro prestações semestrais de sete mil contos, ao juro de 5% e com uma entrega inicial de cinco mil contos.
      O navio foi-nos entregue nas Canárias em Tenerife. Quando lá chegou, já me encontrava naquela cidade com a tripulação que tinha levado dos Açores.
      Tínhamos contratado com a firma vendedora que durante um mês o mestre pescador, o motorista e mais quatro tripulantes, ali ficariam para nos ensinarem o funcionamento e manobras no cerco. Deviam desembarcar nos Açores, mas chegados à Madeira quiseram regressar a França, sem tão pouco fazerem um cerco com peixe.
      Chegámos aos Açores com pouco mais de meia dúzia de toneladas de pescado, mas ao descarregamos o peixe verificou-se que este tinha sido mal congelado e por conseguinte estava estragado, foi o primeiro contratempo, pela falta de preparação, para trabalhar com o frio, o que aliás não voltou a acontecer. Mas outros viriam…
      Fizemos vários cercos. Quando o peixe cercado era pouco, as coisas corriam mais ou menos bem, mas quando se tratava de cercos com muito peixe não se conseguia chegar com ele à borda, acabando por se perder o peixe, por as manobras não serem bem executadas. Quando já se estava no fim da época, soubemos que em Santa Maria estavam a ser pescado pelos barcos pequenos, rente à costa grandes quantidades de bonitos. Fomos fundear para Vila do Porto e contratamos para nos venderem o peixe à unidade. Em poucos dias carregámos o navio com mais de quatrocentas toneladas de bonito que fomos levar a Setúbal a uma Fábrica que nos tinha comprado esse pescado. Conseguimos realizar neste negócio mais de sete mil contos que foi com que pagamos a primeira prestação da compra do navio que se estava a vencer.
      Ao regressar a Setúbal, como já não era época de peixe nos Açores, resolvemos ir fazer uma campanha a Cabo Verde e Golfo da Guiné, mas as coisas aí também não nos correram bem. O peixe que conseguimos apanhar foi para o gasóleo, alimentação e pouco mais. E esse pouco ainda a Fábrica em Cabo Verde, onde entregámos o peixe nos ficou a dever pelo menos eu desse dinheiro nunca lhe vi a cor. Procuraram segurar-nos por lá o máximo tempo possível, não nos pagando nem nos dando gasóleo, para não nos virmos embora. Para o conseguir tivemos de usar artimanha. Metíamos cinco mil litros de gasóleo, fingíamos que íamos para a pesca, mas fundeávamos numa Baía de outra Ilha e por ali ficámos alguns dias para depois regressarmos para tomar mais gasóleo. Quando vimos que tínhamos o gasóleo suficiente para a viagem de regresso aos Açores, fomos à Ilha do Sal, deixamos lá na Baia das Palmeiras os tripulantes cabo-verdianos, com passagens pagas para regressarem à sua ilha e durante a noite deixámos aquele arquipélago com rumo ao Norte, a toda a velocidade, não fossem mandar atrás de nós  um patrulha que a Rússia lhe tinha oferecido após o 25 de Abril. Mas nós estávamos informados que este navio só deitava 10 milhas horárias, ou seja um pouco menos de que nós. Se ganhássemos três ou quatro horas de avanço, não nos poderiam mais alcançar.
      Rumámos aos açores, tendo como tripulantes, além do meu genro como Capitão, eu como motorista e os meus três filhos como marinheiros e um cozinheiro cabo-verdiano  que de maneira nenhuma quis ficar naquele país : tinha sido polícia, mas como deixaram de lhe pagar o ordenado, acabou, para poder sobreviver, por até vender pistola que lhe tinha sido distribuída.
      Ao chegarmos aos Açores, atracámos o navio no recanto da doca de Ponta Delgada e logo iniciamos as diligências para mandar vir de França seis ou sete marinheiros para nos ajudarem nas manobras de cerco, para tentarmos ver se conseguíamos que os pescadores açorianos se adaptassem aquela pesca. Não era fácil compreender esta sua relutância. Enquanto nas traineiras, dormiam todos juntos num compartimento à proa debaixo do convés, não tinham casa de banho na maioria dos barcos, comiam sentados na borda ou em cima das escotilhas no convés, naquele navio dormiam em camarotes de quatro ou seis pessoas, tinham casa de banho com duche de água quente, comiam numa sala de jantar, servidos pelo cozinheiro, tendo sempre sopa e um prato e para beber cerveja ou vinho. Julgo que eram condições bem favoráveis. Eram as condições que tinha a companha francesa, de um país desenvolvido como aquele.
      Foi fácil através da Firma que nos tinha vendido o navio conseguir os tripulantes que desejávamos, mas deparámos com outra contrariedade. O Governo não autorizava a vinda de mão-de-obra estrangeira. Foi necessário fazer exposições, andar muito pelas repartições para que fosse feita legislação para a vinda desses homens. Foram meses de espera com o navio atracado no recanto da doca.
      Como não era pessoa para estar parado muito tempo, o sr. Fernando Teixeira, gerente da Corretora, pediu-me se eu lhe podia fazer uma planta para modificação da traineira “Mariante”, em que se lhe pudesse ser instalado frio.
      Fiz a planta e fui mostrá-la, achando que estava dentro daquilo que pretendia, mas que não tinha quem soubesse executar aquela obra se eu não queria encarregar-me de dirigir a construção. Como aguardava as autorizações do Governo para a vinda dos pescadores da França, aceitei. A traineira estava varada em Vila Franca, tinha que me deslocar todos os dias àquela Vila.
      Foi num sábado quando ali estava que recebo um telefonema para vir com urgência à cidade. A verdade é que estando num trabalho que não podia ficar suspenso, demorei-me mais, quando um táxi à porta do estaleiro me veio buscar.
      Ainda perguntei ao condutor de que se tratava, mas este nada sabia, tinha recebido uma chamada da Corretora, para me ir levar à doca. Para ir para a doca era qualquer coisa que se passava com o navio, mas o tempo estava bom, por mais que pensasse, não conseguia ver o que seria. Foi quando íamos na avenida que olhei para o local onde devia estar o navio e não o vi, só um pouco mais adiante vejo bóias da rede a boiar e uma coisa escura por cima da água.
      O táxi parou em frente à Capitania, lá me esperavam o sr. Fernando Teixeira, José Maria do Porto, o meu genro que foi quem veio abrir a porta do táxi, entre muitas outras pessoas. Sei que quando saí e olho novamente por cima da capota do carro o local onde devia estar o navio e só vejo destroços a boiar e uma mancha negra por cima da água, ainda me lembra de tudo ver subir e passar por cima da minha cabeça. Sei que perdi os sentidos, tendo sido amparado por alguém que disso se apercebeu, só tendo voltado a mim já na Capitania bebendo um copo de água.
      

      Numa outra ocasião sucedeu-se coisa idêntica. Estávamos construindo a estrada da Fajã do Ouvidor, e eu ao chegar a uma frente de trabalho e verificando que os trabalhos não estavam a correr da melhor maneira, chamei a atenção do encarregado daquele grupo, acabando por me exaltar. Ao chegar a uma outra frente um pouco mais a abaixo, levei a mão à algibeira para tirar um cigarro, vendo que não tinha, sem me lembrar que tinha deixado de fumar já há mais de uma semana, fui direito ao encarregado e pedi-lhe que me desse um cigarro. Ele ficou olhando para mim com espanto e eu voltei a insistir; acabou por levar a mão à algibeira e entregar-me o maço. Tirei um que coloquei na boca e voltei a entregar o maço, mas logo verifico que também não tinha lume, mas ele agora já está a entregar-me o acendedor. Eu acendo o cigarro e ainda debaixo da exaltação que tinha tido, quando acendo o cigarro puxo uma fumaça, mesmo de uma pessoa desconsolada. Eu estava virado para o mar, tendo a Ilha Graciosa ali à minha frente numa manhã radiante. Só a vi levando o mar consigo, subindo para os céus e passar por cima da minha cabeça.
     

      Agora, embora por um acaso completamente diferente, a sensação foi a mesma. A Terra ou antes o mar a fugir-me!
      Será, como devem compreender, muito difícil de explicar o profundo desgosto que acabara de sofrer, por certo seria uma ferida muito difícil de cicatrizar, podendo mesmo garantir que foi necessário muita força para conseguir vencer o desgosto de ver desaparecer o sonho da minha vida, de uma maneira inglória, quando ali estava inactivo e alguém por incompetência inexplicável sai com o navio com 180 metros de comprido, sem carga alguma, com mais de 30 metros de costado fora da água e isto com o vento de cima da terra sem o auxílio de qualquer rebocador. O vento começou a atirá-lo contra a muralha, o piloto para evitar bater mandou dar mais força às máquinas, mas já era tarde, a hélice ao passar pela popa do navio atracado, (a popa era de rabo de pata), cortou-a com duas das pás, abrindo-lhe água. Pouco depois estava no fundo.
      A companhia de Seguros do navio albarruador (a Loyds), compareceu no dia seguinte a tomar as devidas providências para tirar o navio do fundo, a fim da doca ficar operacional. Para o efeito veio uma companhia da Inglaterra, especializada no assunto, tendo o posto de novo a flutuar, ao fim de pouco mais de uma semana de trabalhos.
      Depois do navio estar de novo a flutuar, ainda fui lá dentro, mas ao entrar na cozinha o meu desânimo foi enorme, mas ainda consegui coragem para ir até um camarote da tripulação, mas ao ver no estado em que tudo aquilo estava, não tive coragem de ver mais nada. Tinha que ser realista, o navio estava irreparavelmente perdido e assim foi considerado pelas autoridades.
      Tinha e tive que aceitar a situação e foi o que procurei fazer embora muito a custo.
      Nós estávamos em dívida da maior parte do pagamento da responsabilidade da Sociedade Financeira que logo passou a exigir à Companhia de Seguro o seu pagamento integral. Como esta não queria pagar a importância pretendida, a questão foi para os tribunais e por ai se arrastou cerca de cinco anos.
      Sei que em dada altura o nosso advogado me mandou chamar dizendo que tinha recebido um telefonema da Companhia de Seguros, que se eu fosse a Londres assinar o recibo, me entregavam vinte e sete mil contos e que o caso ficava resolvido. O advogado ainda me tentou convencer, dizendo que ia comigo e tudo ficava resolvido. Eu ficaria a viver em Londres, ou em outro país que quisesse durante dois anos e que depois podia voltar a Portugal.
      Tal procedimento não estava na minha maneira de proceder e logo lhe disse que não aceitava tal hipótese. Ainda me procurou fazer ver que assim ficavam os sócios todos bem, caso continuasse tudo a arrastar-se pelos Tribunais, estava sujeito anão vir a receber nada, pois que tudo seria para juros, advogados e despesas de tribunal. Nisso ele tinha razão pois foi o que viria a acontecer.
     Tinha ido várias a Lisboa tratar do assunto junto da direcção da Sociedade Financeira, que tiveram a máxima confiança em mim e agora fugir às minhas responsabilidades, perante eles, isso nunca, preferia ficar sem nada, mas com a minha palavra.
      Nunca soube como tudo ficou resolvido, só sei que como tinha sido nomeado fiel depositário, o Tribunal atribui-me uma verba de 800 contos que foi todo o dinheiro que dali vi.
      Após o afundamento, apesar do desgosto por  que acabara de passar, tive de arranjar coragem e procurar seguir em frente. Como estava dirigindo a construção da traineira “Mariante”, dois dias depois apresentei-me em Vila Franca a dirigir os cerca de dez mestres que ali estavam naqueles trabalhos. Concluída esta reparação e como nada ainda tivesse sido resolvido quanto ao navio, comecei a idealizar um projecto para um iate de recreio, talvez com esperança remota de poder a vir a receber algum dinheiro que desse para a sua construção. Terminado o projecto, comecei a pensar na possibilidade de dar inicia à sua construção.

 


_____________________
Nun’Álvares de Mendonça, natural das Velas, S. Jorge. A história encontra-se publicada no livro “Marinheiro em Terra”, edição de autor, Nova Gráfica, Lda., Ponta Delgada, 2006. A história e a publicitação da fotografia é com a autorização do autor de 21/04/2006.

 

    

 


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