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Um Dia de Mato

Autor
Monsenhor José Machado Lourenço
      Divergiam as opiniões: eu e meu irmão preferíamos visitar as furnas do enxofre, que há muito não víamos, dizendo-se que por dias estavam muito activas (muito bom sinal contra os abalos, uma vez que por elas respirava a terra…); minha cunhada Filomena – a bondade em pessoa ­­- e a nossa priminha Maria de Fátima, anjo de inocência e de beleza, que era a tentação de tantos rapazes , optavam por um salto à pequenina mas aprazível Lagoa do Negro.
      Como sempre, venceu o elemento feminino, ainda por cima exornado com ditos predicados…
      O João Coelho, que fomos encontrar junto ao curral da ferra (ferra que não passara, afinal de contas, de banal experimentação de gado bravo), situado ao Galhardo, observava rigorosa neutralidade. Estava por tudo, oferecendo-se como guia para qualquer dos lados, gabando-se de conhecer o mato como o quintal da sua casa. Solicitado, porém, a declarar o seu parecer, puxou da algibeira do colete o relógio de oiro, informando: 5 da tarde. E inquiriu:
      - A que horas partiram lá de baixo?
      - Às 11.
      - Às 11 ?! Foi andar…
      E por vezes sob um chuvisco teimoso. Pensámos até em voltar para trás; mas as mulheres protestavam. “Para trás mija a burra!”, galhofava a Maria de Fátima.
      - Padeiras de Aljubarrota!, classificava o João Coelho.
      - Briandas Pereira!, corrigia eu, incorrigível bairrista!
      - E não se sentem cansadas?...
      - Cá nada!, respondeu a Maria de Fátima.
      - Agora!, confirmou a Filomena.
      O João Coelho piscou-nos o olho, a nós, homens, que de maneira nenhuma mostraríamos fraquejar diante delas. Sorrimos, mas ele manifestou sinceramente o que pensava: Achava melhor irmos direitinhos para casa e deixarmos a visita à lagoa para outra ocasião, que o mundo não vai acabar… Contudo, se isto desagrada às valentonas, marchemos para a lagoa! Mas sempre quero prevenir de que não chegaremos à freguesia antes das dez e meia  da noite.
      - Deixa-lo!
      A Filomena e a Maria de Fátima nunca tinham visto a Lagoa do Negro. Também desconheciam as Furnas do Enxofre, mas haviam-lhe dito que para chegar a estas era necessário atravessar criações de toiros… Livra!
      E estugámos o passo, capitaneados pelo João Coelho, logo seguidos pelas mulheres. Tal era a sofreguidão destas para alcançarem o sítio desejado, que nem atentavam nas belezas por onde iam passando. Trechos de planícies de verde fofo, de que rebentavam inúmeras colinas polvilhadas de oiro pelo sol a descer para o mar, rebanhos de ovelhas fixando-nos, surpresas, rompendo o silêncio das coisas com baldios suaves e, ao longe os mistérios, montes de pedra calcinada, rios de lava de extintos vulcões, como, de resto, já assim fora, milénios antes a ilha inteira.
      E eu, que levava a minha Bíblia de bolso, pedi licença para ler do salmo 64, que os outros ouviram reverentes:

Vossa bondade nos responde com prodígios,
ó Deus, nosso Salvador;
sois  a esperança dos confins da terra
e dos mares mais distantes.

As montanhas firmais em vossa força
e de poder vos cingis;
aplacais o furor dos mares
e o bramido de suas ondas,
e o tumulto das nações.

Os habitantes das terras longínquas
maravilham-se com vossos sinais;
nos países do nascente e do poente
fazeis brotar gritos de alegria.

Visitais a terra e a regais,
cumulando-a de fertilidade;
as fontes do céu transbordam de água,
fazeis crescer o nosso trigo.

É assim que preparai a terra,
irrigando os sulcos, as glebas nivelando,
amolecendo-as com as chuvas,
abençoando a semente.

Corais como benefícios um ano todo,
fecundo é o rastro que deixais.

Vicejam as pastagens do deserto,
as colinas se revestem de alegria;
os prados se enfeitam de rebanhos
e as planícies de trigais se enchem.

Tudo canta e grita de alegria!

      - Vocês não acham que David descreve a nossa terra?...
      - Hei-de copiar isso, que ainda vai servir para as minhas cantigas ao desafio, disse o João Coelho, no seu pragmatismo americano!
      - Ainda cantas?
      - Penso em recomeçar… A América estancou-me a inspiração, mas sinto, nos ares da nossa terra, que ela se renova!
      Uma hora depois estávamos na lagoa. Para as suas margens desciam vacas a matar a sede. Erguiam-se montanhas ao longe, e logo ali, à esquerda, eleva-se o Pico Gaspar, com a sua pequena caldeira, o qual, apesar de não ser dos mais altos, goza do condão de ser visto de meia Terceira. Como sempre no verão, as margens haviam-se encolhido.
      - Julgava-se que fosse maior, observou a Filomena.
      - Está quase seca, exagerou a Maria de Fátima.
      - Mas nunca seca, informei, fazendo-me entendido.
      - Nunca seca, à uma corroboraram os outros dois. Sentámo-nos todos sobre a relva, e quis então a Maria de Fátima saber a razão do nome daquela poça de água, troçava!
      - Já ia lá chegar, respondeu o João Coelho, mas olha que a poça de água alarga-se bastante fora do verão. E mesmo assim ninguém sabe a fundura da lagoa. Sempre ouvi dizer que um negro conduzia um carro de bois sequiosos, não teve mão nestes, e…era uma vez um carro, uns bois e um negro que deu o nome à própria sepultura!...
      - Não acredito!
      - Não acreditas? Olha, dizem até que em certas noites escuras se ouvem os bois berrar e o negro a lamentar a sua vida!
      A Maria de Fátima, apesar de não acreditar, estremeceu e levantou-se com os restantes, que o faziam simplesmente à cata de abrigo de parede contra a chuva miudinha que uma nuvem preta esparzia teimosamente. Quando parou, reinava a escuridão, não tanto pelo adiantado da hora como pelo nevoeiro que descia espesso das cercanias sobranceiras.
      O João Coelho aconselhou um atalho direito à estrada Doze-Ribeiras – Pico da Bagacina, poupando-se uns quilómetros. Ele ia à frente, seguido pela Filomena, Maria de Fátima, meu irmão e eu no couce da fila. A Maria de Fátima, sem parar, perguntou à Filomena se não ouvira berros de bois e lamentos de homem! Felizmente ela não ouvira…
      E lá seguíamos em impressionante silêncio! Ninguém se desviava uma polegada, senão… era certo, certinho, o trambolhão, enredados os pés na rapa rasteira. Felizmente, por ali não havia grotas em que nos precipitássemos, e todos o sabíamos.
      Ao que parecia, tudo corria bem, embora o João Coelho já se admirasse, lá consigo, de não surgir a estrada, decorrida uma hora de bom andar. Com essa ideia ainda a bailar-lhe na mente, estacou excitado: “Olha o estupor da lagoa!”
      Todos provaram, as mulheres principalmente, o amargo do desânimo.
      - Credo!, exclamou a Filomena.
      - Nossa Senhora!, suplicou a Maria de Fátima.
      - Que foi?, perguntei, ignorando ainda o que se passava.
      A lagoa mudou de sítio, respondeu-me com riso amarelo meu irmão.
      Sorri na mesma cor, pois tínhamos, nós homens, de não dar parte de fracos, de animar o sexo frágil, sem, todavia, ferir o nosso inexcedível guia.
      Este não se dava por vencido, procurando imprudentemente o mesmo atalho, em vez de retomar o caminho mais longo que nos levara à lagoa. E já nos mordia cruamente a dúvida (gato escaldado…) de não irmos de novo na direcção devida, quando os faróis dum automóvel foram para nós como a coluna de fogo para os Israelitas durante a noite na travessia no deserto…
      Em breve alcançámos a estrada, em cuja berma descansámos sobre toscas pedras, reavivando o coração com um cálix de aguardente!
      A boa disposição voltou, e da desgraça fizemos um motivo de alegria!
      Para enganar a distância (pelo menos mais quatro horas de viagem), o João Coelho contou-nos a sua odisseia de emigrante, respondendo per longum et latus à pergunta da Maria de Fátima:
      - O tio João para que foi para a América? O pai do tio era tão rico…
     - A menina, curiosa como todas, quer então saber da minha vida! Faço-lhe a vontade. E começo por declarar que meu pai (Deus lhe dê o Céu!) tinha realmente com quê, mas a sua fortuna dividida por dez dava pouco. E eu queria ser tão abastado como ele, ou ainda mais.
      - E vai daí… toca p’r à América!
      - Não senhora: toca p’r’ ó Brasil!
      - Credo! Ruim terra! Não ganham nada e nem sequer escrevem aos seus.
      - Ruim terra… é como quem diz. Gostei muito do Brasil, todos os que lá emigram gostam. O Brasil é bonito, fala a nossa língua, e terra para nos divertimos… não quero outra. Agoraganhar… uns têm sorte, muita sorte; outros, a maioria, é só da mão p’r à boca e, muitas vezes, nem isso! Por exemplo, o sr. Chico Luís…
      - Esse tinha mesmo o cu de prata, conforme o designavam!
      - E mesmo o tio Vitorino Malão
      - Agora o sr. António Menina, que foi acabar no asilo…
      - Pois vieiram do Brasil ao mesmo tempo, ambos com uma fortuna sensivelmente igual. Mas o tio Vitorino comprou terra (“Quero o dinheiro ao sol”, costumava dizer) e foi sempre rico; ao passo que o sr. António Menina, que se ria do outro, depositou o seu dinheiro na Caixa, vivendo bem dos juros, sem trabalhar… O escudo desvalorizou-se e ele caiu na miséria.
      - Lá o tio João foi muito feliz, acudiu a Filomena, em auxílio da Fátima.
      Na massa… nem por isso; pelo que estudei as possibilidades que tinha de embarcar para a América, a juntar-me a um irmão na Califórnia.
      - E lá foi…
      - Levou tempo. Legalmente jamais o consegui. Só clandestinamente.
      - Processo perigoso, avancei, entrando no diálogo.
      - Mas eu deixara a minha terra para ser rico e havia de sê-lo, mais que o sr. Chico Luís, embora nunca me chamassem, como a ele, por “senhor”… Relacionei-me com o chefe de criados do CARIOCA, paquete brasileiro que escalava alguns portos dos Estados Unidos. Não foi exigente o homenzinho, não senhores; mas uma condição amedrontava: eu recolheria permanentemente ao porão e ali devia esperar que ele me levasse o de-comer.
      - Quantos dias?, meteu meu irmão a sua colherada, não certamente da feijoada do João Coelho, no porão…
      - Quantos dias?! Pergunta: quantas semanas?!
      - E pôde aguentar-se vivo?
      - Tinha todo o empenho! Mas quando encontrei meu irmão, ele olhou para mim como quem não me reconhecia. Eu abracei-o e chorámos os dois. Levou-me para um rancho de pessoa amiga, e ali trabalhei muitos anos.
      - Nunca o apanharam?, inquiriu interessada a Maria de Fátima.
      - Não; mas vivi todo esse tempo com o coração nas mãos. Ninguém me denunciou. A América é um mundo. Contudo, só conheci dela a extensão do rancho. Contavam-me coisas maravilhosas, que eu ansiava muito ver; mas… “está quieto, João, se não queres bater com os ossos na cadeia! Se queres continuar aajuntar dinheiro!”
      - E ajuntou?
      - Pois se eu não tinha em que gastá-lo…
      - Nem sequer num copinho de aguardente?, concretizou maliciosamente a Fátima, que sabia, como todos, quanto o João Coelho a apreciava.
      - E agora por isso, ordenou a Filomena: sentemo-nos e bebamos mais um.
      Brilharam os olhos do João Coelho, para quem o precioso líquido fora o principal lenitivo nos Estados Unidos, mesmo durante a Lei Seca!...
      Já havíamos percorrido uns bons quilómetros, porque a vida do João Coelho era semeada de longos apartes e entrecortada dalgumas alegres anedotas.
      Aligeirando cada vez mais o passo, o Caminho de Cima ficara já para trás. Ribeira do Mouro abaixo, parecíamos, salvo seja, burrinhos a caminho da cocheira! Mas a verdade é que eu não vinha coisa quê… Aquela aguardente soube-me como os outros, mas caí-me mal no estômago. Sentia a aproximação duma vertigem. Não a atribuo apenas à cachaça. O João Coelho protestava mesmo contra a calúnia!... E não me envergonho de confessar que vinha muito cansado. Partíramos de casa, como já disse, às 11 horas, e ouvíramos há pouco o relógio da igreja bater as 21h30.
      Parámos. A Filomena sentou-se no chão e obrigou-me a reclinar a cabeça no seu regaço. Os restantes permaneceram de pé, algo preocupados.
      O mal-estar passou depressa. Embora sentindo uma certa prostração, julguei-me capaz de prosseguir, mais vagarosamente porém. E em breve, recolhíamos a penates.
      O João Coelho descera um tanto em nossa consideração, como guia nos baldios, mas subira um ponto na previsão horária. Quando entrámos em casa eram precisamente 22 horas e 30 minutos!
      Poucas vezes, talvez nunca, senti o cansaço como nessa noite. A cama convidava-me, e dormi o sono dos justos, embora, ai de mim!, não fosse um deles.
      Na manhã seguinte, Dia do Senhor com a alma ainda cheia das maravilhas do baldio terceirense, então muito mais extenso do que é hoje, saboreei na oração da Manhã de Laudes, como jamais saboreara, o salmo 148:
 
Dos céus, louvai o Senhor,
louvai-O, nas alturas,
louvai-O, todos os seus Anjos,
louvai-O, todos os seus exércitos!

Louvai-O, sol e lua,
louvai-O, astros brilhantes
e vós, céus dos céus, louvai-o
e águas que estais acima dos céus!

Louvem todos o nome do Senhor:
porque Ele ordenou e todos foram criados;
Ele os fixou para sempre,
deu-lhes uma lei que jamais passará.

Da terra, louvai ao Senhor,
monstros marinhos e abismos do mar,
fogo e granizo, neves e neblinas,
ventos impetuosos, portadores da sua palavra!

Vós montanhas e colinas,
árvores frutífera, dos os cedros,
feras e animais domésticos,
réptil e pássaro que voa!

E vós, reis da terra, e vós, povos todos,
príncipes e juízes da terra,
rapazes e moças,
velhos e crianças.

Louvem o nome do Senhor,
porque só o seu nome é excelso;
Sua gloria domina a terra e o céu.

Ele exalta o poder de seu povo.
Louvem-n’O todos os seus fiéis,
Os filhos de Israel, seu povo eleito.

 

_______________________________
Monsenhor José Machado Lourenço, nasceu na freguesia das Cinco Ribeiras, Ilha Terceira, a 12 de Agosto de 1908.O conto encontra-se publicado no livro Contos  Semi-Históricos da Colecção Gaivota, 1980. A divulgação do conto e a publicitação da fotografia é com a autorização dos familiares, o Exmo. Sr. Henrique Santos e a Exma. Sra. Fátima Santos, 12 de Abril de 2006.


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