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DOS AÇORES |
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A DESCOBERTA DA CIDADE
Autor
Cristóvão de Aguiar
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1 Nem tudo foram desgraças naquele ano aziago. Sobre passar, com distinção, no exame do primeiro grau perante um professor de fora da terra, foi também o ano em que descobri a cidade. Meu pai havia-me prometido que, se ficasse bem no exame da terceira classe, me levava consigo à cidade na carroça do Dick. E cumpriu a palavra. Nos anos imediatamente a seguir à Segunda Grande Guerra – ainda se via em algumas janelas mais desmazeladas tiras de papel coladas em cruz por trás dos vidros -, chegava meu pai à noitinha a casa empastado de suor, ferrugem e cinza de mais um dia de forja, e dizia de testa franzida: - Se por estes dias não chega ferro e carvão, não sei o que há-de ser da minha vida, com tanto que fazer e sem nenhum material para dar vazão à s encomendas. Vinha a notícia de algum vapor chegado ao molhe da doca, e os vincos da testa desfranziam-se, corria a ceia com outra esperança. E no outro dia logo pela manhãzinha, meu pai aparelhava a carroça do Dick de vavô Evaristo e largava para a cidade pelo caminho velho do Caldeirão, muito mais curto. Estava cansado de ouvir falar da cidade não só a meu pai como também ao Ti Manuel Botelho, que ia três vezes por semana fazer fretes. Carregava lenha de estufa ou beterraba para a fábrica e no regresso trazia sacas de açúcar, salitre, adubo e outros precisos para as mercearias de Tronqueira. Ao ouvi-lo contar acerca das suas andanças percorrendo os armazéns da cidade ao longo de ruas muito compridas e largas senti-me arrepiado por dentro e por fora. Sentia, no fundo, uma vertiginosa atracção por aquele homem destemido que sabia desembaraçar-se naquela floresta de casas, ruas, lojas e armazéns sem se enganar no caminho… Era esta, afinal, a minha grande preocupação: como um homem de tão longe era capaz de se orientar naquela confusão babilónica e voltar à nossa freguesia com a mesma naturalidade de quem ia à Canada do Lombo do Cavalo carregar uma carroça de pontas de milho, de palha ou de tocos de lenha! E esta preocupação transformou-se, a pouco e pouco, em deslumbramento. Em poucos dias depois do meu primeiro exame, no qual fui crucificado nos braços de duas cruzes – por um lado, o ditado, a redacção e os problemas; por outro, os sapatos apertados e a roupa da longínqua Primeira Comunhão também estrenidinha de todo, apesar de ter na altura sido talhada lassante para durar -, calhou ir meu pai à cidade comprar materiais para a oficina. Deu-me a novidade na véspera à noitinha, e escusado será dizer que não preguei olho. Chiava-me os miolos na cabeça como água na chaleira em cima da trempe ou do fogareiro a petróleo. Nem as orações da hora de deitar rezei com jeito, deserto que a manhã luzisse na telha de vidro do meu quartinho. Minha mãe tinha já preparado a saquinha enquartada com duas fatias de pão de trigo, uma lasca de queijo amarelo para condutar e duas bananas.
2
Sentado na carroça do Dick à ilharga de meu pai, atravessámos o Canto da Fonte, ainda os homens estavam aos magotes à espera de serem arrematados para irem dar o dia de sacho ou de foice no gadanho. Sentia-me grande demais para caber em mim. O ar leve e morno da manhã era uma aguilhada esfregulhando-me para o inicio de uma aventura de duas léguas de lonjura, distância que só conhecia, reduzida a quilómetros, decâmetros e metros, do caderno de problemas. Na Lomba, o cabo da nossa freguesia e do mundo para muitos como eu, começou o coração a dar de si. Arrochava-se-me contra a caixinha do peito numa tristeza misturada de saudade nem sabia bem de quê. Olhei as últimas casinhas escaioladas de branco e senti umas ardências de me apear ali mesmo e desarvorar para casa. Mas, ao erguer os olhos para meu pai, segurando as rédeas do cavalo e incitando-o, com estalidos de boca e palavras mansas, a estugar o passo. - Vamos lá Dick, anda meu velho! Ganhei mais uma nisquinha de ânimo e deixei-me levar pelo trote nervoso do bicho, uma rica estampa que, por direito próprio, também pertencia à família. Não ia sozinho. Levava sinais concretos do meu pequeno mundo, confinado, a partir da altura em que o Caminho Velho entrava na fronteira de ninguém, a meu pai e ao Dick. E a mim também. 3
De vez em quando vinham-me dessas cismas que não sabia alumiar com nenhuma acendalha do espírito. E elas faziam com que minha mãe se sentisse mais apegada a mim. Havia de resto entre nós uma espécie de pacto mudo que nos atraía um para o outro. Bastava um olhar dela para eu entender tudo. E ela também lia em mim com num missal aberto! Ainda me fervilham no íntimo e na memória as excursões a pé que o senhor padre João organizava, no Verão, ao Pico da Cruz. Minha mãe preparava-me uma merenda com de pão trigo, doce de amora e fruta. Em chegando à coroa do pico, sentávamo-nos no chão relvado e saboreávamos, consolados, o que havíamos trazido de casa. Lá no fundo a nossa freguesia parecia um presépio escondido entre arvoredo, a fila de casas da Rua Direita e da Rua do Barão das águas formavam um ângulo recto, a igreja da Senhora da boa Viagem no vértice. Um pouco mais abaixo, o mar do norte, sereno e azul, a ponta da Ferraria à esquerda e os montes do Nordeste à direita. Os olhos inocentes não conseguiam absorver a maravilha de um só hausto. Aproveitava então o senhor padre o nosso deslumbramento para nos ir explicando os nomes das freguesias e lugarejos para nos ir explicando os nomes das freguesias e lugarejos que daquela altura se alcançavam. E concluía sempre com um louvor às maravilhas da Natureza criadas por Deus para nosso deleite… Cantávamos depois em coro os cânticos que ensaiáramos durante a catequese. As nossas vozes pareciam furarem o céu, onde, tínhamos a certeza, se imobilizara a Corte Celeste a escutar-nos. Descíamos o monte na cantoria para enganarmos a canseira das veredas e também porque sentíamos um grito de aleluia ressuscitando do peito. A minha saquinha a tiracolo vinha a bem dizer cheia como tinha ido. Desta vez, contudo, enchiam-na as cascas da fruta, os caroços, os papéis com que minha mãe embrulhara a merenda. Sentia pena de atirar fora as coisas que haviam sido tocadas por minha mãe. Julgava eu que sentiriam saudades naquele ermo abandonadas.
4 Na coroa da Furna, o Dick nadava num mar de espuma. Dava-lhe então meu pai ternas palmadas nas ancas molhadas, maneira de lhe transmitir que o pior havia já passado e que, dali em diante, seria um tal andar, que a descer todos os santos ajudam. Já ao longe se divisava o alvo casario da cidade e a doca com os seus barcos e navios atracados. Tínhamos ainda obra de três quartos de hora de caminho. Com sentido de calar a boca do estômago, tirei da saquinha uma fatia de pão e a nisca de queijo de peso, e pus-me a trincar. Muito cuidado precisava eu de ter com o conduto se, no fim, não quisesse comer o pão seco. Enrolei, por isso, o pedaço de queijo num papel pardo de embrulhar açúcar, deixando, como era óbvio, uma ponta do conduto de fora. A borda do papel marcava o limite até onde podia avançar sem risco de ficar sem queijo para o resto do pão. - É preciso condutar muito bem, meu filho – dizia minha mãe quando lhe ia pedir mais uma nisquinha de queijo flamengo para acabar o pão. Um di ouvi-lhe dizer que o senhor Evaristinho Feijó, que, já de coroa aberta, deixou o Seminário Maior de Angra por fraqueza de sangues que não de espírito e de memórias, era obrigado a comer, se não quisesse ficar tísico, duas fatias de pão de trigo em cima uma da outra, à laia de sandes, recheadas de manteiga de vaca e de uma grossa fatia de queijo de S. Jorge. Isto todas as manhãs ao primeiro almoço e ainda uma tigela de leite de cocoa americana… Cresceram-me as águas na boca, e durante muito tempo fiquei a malucar na grande sorte que o ex-seminarista tinha em lhe ter dado um princípio de tísica não galopante. Quem ma dera a mim também…
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Entrámos na cidade pelo lado do Campo de S. Gonçalo, aberto às sextas-feiras aos feirante de reses. Até aí nada de novo me espicaçou a atenção. Via casinhas como as da minha freguesia, atarracadas, os quintalejos vicejando couves repolhudas e roupa remendada estendida ao sol a secar. Como eu eram os rapazes que via brincando a jogos que estava farto de conhecer. Descalços e tudo! As vacas pastando à corda nas pastagens verdes, os chocalhos pendurados ao pescoço, nenhuma diferença faziam das que via passar, aos magotes, nos caminhos e canadas de Tronqueira… Só quando, pouco depois, a carroça do Dick começou a descer de sapata apertada o Calço da Má Cara para a Rua da Arquinha é que reparei que estava entrando num mundo com fracas parecenças com o meu. A rua tão comprida que me saía dos olhos arregalados possuía um movimento de dia de procissão na freguesia. As pessoas andavam ligeiras, quase a correr, nem os bons-dias davam umas às outras – um desconchavo! Dava a impressão de que, na cidade, seria domingo ou dia santo de guarda, caso contrário não se entendia a razão por que quase toda a gente andava tão bem trajada, sapatos luzindo de lustro na ponta do pé e gravata asseada ao pescoço. Algumas das casas eram quase tão altas como a torre da nossa igreja, acrescentada em altura, cerca de treze metros, havendo muito poucos de nós, a não ser o Cidério e o Mija-na-Jarra, que conseguiam salvá-la como uma pedra… Ao chegarmos ao primeiro cruzamento, um polícia esbracejante, como uma pessoa pegada do juízo, fez um sinal com a mão enluvada de branco, e meu pai puxou a rédea do Dick, que, obediente, rodeou o canto para o lado direito – uma rua tão comprida e larga como a primeira, lojas e mais lojas a seguir uma ás outras e de ambas as ilhargas. Aquela, porém, de o polícia fazendo sinal a meu pai, deu-me que fazer ao miolo. Tinha cá um medo que me pelava à autoridade, sobretudo se se apresentava fardada… Já com o Beliboga, o polícia de Rabo de Peixe, fugia a sete pés quando o via no seu giro diário a Tronqueira. Toda a gente afirmava que os polícias mandavam no mundo. Abaixo de deus eram eles a autoridade máxima na vida civil. E o certo é que a prova estava bem à vista. Bastou um deles fazer um sinal com a mão para o meu pai obedecer sem refilar, ele que era homem genioso, e seguir na direcção indicada. De tal forma foi crescendo o meu medo aos polícias que sempre que bispava algum pelo caminho até me ficar a pele em couro de galinha… Só muito mais tarde é que cheguei ao fundamento dos sinais nos cruzamentos. Primeiro faziam-nos as pessoas que se transportavam nas carroças e automóveis. Na minha atrapalhação não deitara sentido ao sinal feito antes por meu pai, com o chicote. Não era, como se propalava. Os polícias fardados não mandavam assim tanto neste mundo… Á medida que descíamos a rua com destino ao armazém de ferragens, ia crescendo a minha admiração. E crescendo foi ela de tal modo que deixou de caber no exíguo espaço das minhas rústicas sensações. Às montras das lojas que se sucediam como pevides de melancia se colavam os meus olhos, devorando o que nelas estava exposto. Entretinha-me a soletrar os esquisitos nomes das transversais que desembocavam naquela rua sem fim e decerto tão principal por onde seguíamos a passo de boi. Das casas de pasto evolava-se um cheirinho apetitoso a coisas boas que me entrava pelo nariz dentro e deixava, na passagem, umas saborosas comichões de apetite. Já meio atordoados com tantas novidades de uma só vez, negaram-se-me os olhos a reter mais o quer que fosse. E recolheram-se. Veio então o Ti Manuel Botelho tomar-me conta do pensamento. Cada vez se agigantava mais na minha admiração. Andar naquele mundo como um peixe na água, sem sequer saber ler nem escrever, só de quem tinha a coragem no seu sítio. Se acaso me dissessem para voltar para trás, sozinho, ficaria de tal forma atarantado que desatava num berreiro na primeira esquina, ainda para mais com tantos polícias à solta pelas ruas da cidade.
6
Chegámos pouco depois ao Armazém de Ferragens Figueiredo, num transversal do Largo da Matriz de S. Sebastião, curtinha e sem grande movimento. Só se viam, de longe em longe, carroças de besta carregadas de lenha ou de latões de leite dos Arrifes. Ao lado do armazém, ficava um edifício alto. Na fachada pude ler os seguintes dizeres: Éden Dançante… As letras pareciam labaredas. Perguntei a meu pai o que vinha a ser aquilo, mas ele não me satisfez a curiosidade. Como estava habituado, nem caso fiz. Havia perguntado por perguntar. Fez alto ao cavalo num minúsculo largo defronte, apertou bem a sapata para que a carroça não descaísse, enfiou as rédeas no fueirinho da dianteira, e disse-me que ficasse ali olhando por tudo enquanto ele ia, num pulo, ao armazém fornecer-se do que necessitava. A conversa não me caiu lá muito bem, mas não quis dar parte de fraco. Se, num supor, lhe dissesse que tinha medo de ficar sozinho naquela rua estranha, já sabia a resposta que me esperava. Engoli em seco. Um nó na garganta principiou a apertar-me. Procurei disfarçar como pude e soube a húmida tristeza que me invadia. Uma tristeza misturada com a lembrança de minha mãe, que, áquela hora, estava com toda a certeza às voltas com os preparativos do jantar, que era ao meio-dia, ou esfregando, na pia de lavar a roupa, as camisas e calças encardidas de cinza e ferrugem com que meu pai trabalhava na sua tenda de ferreiro. Funda que nem um coval de cemitério foi uma nostalgia a pouco e pouco apoderando-se de mim. Os meus companheiros brincava, despreocupados, no Canto da Fonte ou na eira da Avenida, e eu ali, abandonado, numa rua da cidade. Sentia-me só no mundo. O Dick não entendia a minha aflição. Alheio a tudo quanto se passava no meu interior, batia, por causa do mosquedo irritante, com as ferraduras novas na calçada polida do larguinho onde estávamos estacionados. E aos poucos também Dick principiou a distanciar-se de mim. Parecia-me um cavalo estranho, um cavalo da cidade. Perdera de repente a ternura que o fizera membro da nossa família. Onde estava o Dick que, todas as vezes saía ou entrava a cancela de vavô Evaristo, parava em frente da porta da cozinha à espera que vavó Arminda lhe viesse meter na boca um quinhão de pão de milho? E com que alegria ele depois agradecia, relinchando uma ária tão sentida que nos deixava a todos comovidos! Já não era o mesmo Dick. Por isso, sentia-me cada vez mais só. Nunca mais aparecia meu pai. Às tantas, havia-se também esquecido de mim. Como se não bastasse atitude fria do Dick… Andava eu enfronhado em todas essas aflições e agonias quando os olhos se me colaram num polícia de giro. Vinha, ou pareceu-me, direito a mim. Tivesse meu pai santa paciência, mas não pude aguentar-me mais. Derramei-me num pranto de saída de caixão, queria pedir socorro, mas só via polícias na minha frente. Em cada lágrima debulhada que me escorria pela cara a baixo reflectiam-se polícias como em espelhos paralelos. E as poucas pessoas que passavam estavam longe da minha intimidade. Se fosse em Tronqueira, quem quer que passasse cabia inteiro na minha angústia. E só dela saía depois de me enxugar as lágrimas que me lavavam os olhos e a cara… Por fim gritei: - Papá, papá! O Dick retesou os músculos, tentou arrastar a carroça. Valeu estarem as rodas travadas por dois tacos de eucalipto novos do trinque. De grandes olhos espantados, o polícia dirigiu-se então para mim. Quando de tal me apercebi, redobrei a gritaria. Mau pai havia de me ouvir, estivesse onde estivesse. Como de facto. Saiu a correr do armazém, amarelo de cidra, pensando com certeza que havia acontecido uma grande desgraça… Quando lhe contei que tinha medo de ficar sozinho, ele suspirou de alívio, mas disse-me com aspereza: - És um banana; nunca mais voltas a vir comigo… Ao meio-dia, mais coisa menos coisa, estávamos de novo na coroa da Furna. A cidade ficava agora para trás. À nossa frente, a ladeira comprida que descia até à Lomba da nossa freguesia. Num trote picado, havia já o Dick há muito retomado a sua humanidade. Era de novo o mesmo. À medida que me aproximava do seu mundo, iam-se-me lavando os pesadelos. À minha ilharga, recuperara também meu pai a sua urbanidade. Ao avistar as primeiras casas da Lomba, tive a impressão de que as não via há que eras. Mais brancas e mais puras na sua atarracada humildade. Deserta àquela hora de mormaço, entrámos na nossa rua. Uma doce paz de regresso definitivo instalou-se dentro de mim. Guardava a chave de todos os segredos daquele mundo só meu. Tratava-o por tu… Ao aperceber-se da carroça do Dick, a Girafa, doida de alegria e saudade, correu ao nosso encontro, o rabo a dar-a-dar, latia e pulava de felicidade. Nos seus saltos, beijava por vezes o focinho do Dick, que inclinava a cabeça para receber aquele afago ternurento… Contudo, só me senti inteiramente reencontrado comigo e com o meu mundo quando pedi a bênção a minha mãe, que, entretanto, assomara à cancelinha da nossa porta. Já apeado, selou a Girafa o resto do pacto com os seus trejeitos amoráveis que só ela sabia fazer…
_______________________ Cristóvão de Aguiar, natural do Pico da Pedra, S. Miguel, Açores. O conto encontra-se publicado no livro “A descoberta da Cidade”, editora Signo, 1992. A publicitação do conto e da fotografia é com a autorização do autor, Fevereiro de 2006. Fotografia cedida pelo Diário Insular.
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